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ESCOLA DO LEGISLATIVO
A ditadura no Rio Grande do Sul é revelada no seminário Memória, Verdade e Justiça
Mariela Carneiro- MTE 13928 - 08:30 - 01/04/2011
Painelistas relataram experiências vividas durante o período militar
Painelistas relataram experiências vividas durante o período militar
Histórias e memórias do passado de três homens que viveram na pele, de formas bem distintas, a época da ditadura militar no estado foram contadas na noite desta quinta-feira (31) no Plenarinho da Assembleia Legislativa durante o seminário Memória, Verdade e Justiça: Marcas das Ditaduras do Cone Sul. A mesa chamada “Memórias da Resistência no Rio Grande do Sul”, foi mediada pelo professor do IFCG/UFRGS, Cesar Augusto Guazzelli, e pelo deputado Jeferson Fernandes (PT). Os painelistas foram o deputado estadual Raul Pont (PT), o prefeito de Porto Alegre cassado em 1964, Sereno Chaise, e o ex-presidente do Parlamento gaúcho, Antenor Ferrari.
 
Antes dos depoimentos dos convidados, o público assistiu à apresentação do músico e compositor Raul Ellwanger. A atividade é promovida pela Assembleia Legislativa – por meio da Escola do Legislativo Deputado Romildo Bolzan –, pelas Secretarias da Administração e dos Recursos Humanos e da Cultura e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
 
O prefeito, o bancário sindicalista e o estudante
“Que Deus permita que nunca mais ocorra isso no nosso País”. Dessa forma, Sereno Chaise finalizou um discurso em que relembrou o dia em que seus direitos políticos foram cassados, quatro meses após ter tomado posse como prefeito de Porto Alegre em uma eleição, numa vitória nas urnas denominada pelo mediador Guazzelli, como ‘estrondosa’. Ele contou que no dia seguinte foi até a prefeitura, limpou suas gavetas e chamou os funcionários para se despedir. De acordo com ele, o golpe não iniciou em 1964, como todos pensam, iniciou 10 anos antes e só conseguiu tomar o poder na quarta tentativa.  “Foi um período muito triste, onde ninguém era respeitado. Tenho orgulho em estar aqui contando essas histórias não para remexê-las, mas sim para que não esqueçamos dessa época onde só imperava o direito da força bruta”, definiu.
 
Antenor Ferrari relatou detalhadamente uma história que, segundo ele, “não consta nos registros e nem nas estatísticas”. Ele viveu o início da ditadura em Caxias do Sul, quando trabalhava em um banco e era integrante da direção do sindicato, recém saído do movimento estudantil. Em 64, logo após o anúncio do golpe, foi preso e permaneceu por semanas no que chamou de ‘um porão fedido, sem assoalho, sem banheiro, com água e esgoto correndo e com apenas um meio colchão para sentar’. Após ser libertado, decidiu atuar na política e veio para Porto Alegre trabalhar com o então deputado estadual Pedro Simon, época que, de acordo com ele, havia muita perseguição política aos integrantes do MDB, partido consentido pelos militares. Em seguida, Ferrari também se elegeu deputado, cargo que, segundo ele, o permitiu trabalhar em favor dos direitos humanos em plena época de ditadura. “Iniciamos o Movimento da Justiça e dos Direitos Humanos da Assembleia, que depois veio a se tornar a comissão que existe até hoje. Na comissão pude colocar a minha alma a serviço de quem sofreu o mesmo que eu sofri”, contou.
 
O mais jovem entre os três, Raul Pont expôs o ponto de vista de um jovem que ingressou na universidade no mesmo ano em que foi imposto o golpe. “Como a gente reage nesses momentos?’, questionou. E ele mesmo respondeu que a reação mais óbvia de quem via até mesmo o presidente do Centro Acadêmico e professores universitários serem cassados era mesmo questionar. “Aquilo nos causava uma revolta, a gente tinha que entender porque. Que golpe foi esse? O que era aquela ditadura? Por que foi tão fácil? Quem sustentou?”. Ele conta que então, se tornou consenso entre os participantes da resistência, a necessidade de saber quais partidos políticos essa grande parcela de insatisfeitos queriam e precisavam. Raul, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, considera que essas preocupações foram muito importantes com o que veio a acontecer depois na história do País e fundamentais para que houvesse a redemocratização.
 
Esteve também presente na mesa a presidente da Asociación Abuelas de Plaza de Mayo, Estela de Carlotto, que palestra no terceiro e último dia. Estela, que foi muito aplaudida pela plateia, fez uma breve saudação ao final dos discursos.
 
Programação do 3º dia
1º de abril, na UFRGS (Salão de Atos II) 18h – Intervenção teatral: Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz 19h – Mesa: “Memória, Verdade e Justiça: Os Direitos Humanos e os Deveres do Estado”
Convidados:
- Maria do Rosário - Ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. 

- Estela de Carlotto – Presidente da Asociación Abuelas de Plaza de Mayo. Sua filha foi sequestrada e enviada a um centro de detenção clandestino quando estava grávida de três meses. O corpo de sua filha lhe foi devolvido. Seu neto, no entanto, não lhe foi entregue. Até hoje, Estela segue em sua busca. A ditadura argentina sequestrou e expropriou a identidade de mais de 500 crianças. Até o presente momento, cerca de cem crianças tiveram suas identidades restituídas.

Suzana Keniger Lisbôa – Integrante da Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos. Seu marido, Luiz Eurico Tejera Lisbôa, foi o primeiro desaparecido político da ditadura a ser reconhecido oficialmente pelo Estado como assassinado pelo sistema repressivo.
 
- Luis Puig - Siindicalista, secretário de Direitos Humanos do Plenario Intersindical de Trabajadores – Convención Nacional de Trabajadores (PIT – CNT). Representante da CNT na Coordenação Nacional pela Anulação da Ley de Caducidad (lei de anistia similar à brasileira) e deputado do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), pela Frente Ampla. 

Mediação:
Enrique Serra Padrós - Professor do IFCH/UFRGS

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