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O PARLAMENTO GAÚCHO NO MOVIMENTO DA LEGALIDADE
7 de setembro de 1961 - Posse de Jango sob o Parlamentarismo encerra período de crise
Vanessa Canciam* - MTB 2060 - 08:50 - 07/09/2011
Jango recebe a faixa presidencial de Ranieri Mazzili
Jango recebe a faixa presidencial de Ranieri Mazzili
Décimo-quarto dia, sexta-feira, 7 de setembro de 1961
 
Em 7 de setembro de 1961, desfazia-se a Rede da Legalidade. Estaria cumprida a tarefa? Na opinião do governador Leonel Brizola, provavelmente não. Contrariado, ele não viajara a Brasília para acompanhar o ato em que o cunhado, João Goulart, prestaria compromisso de cumprir a Constituição e tomaria posse como presidente da República sob o regime parlamentarista imposto pelo Congresso Nacional, por meio da emenda constitucional aprovada às pressas cinco dias antes. A explicação oficial do governador para a ausência era de que precisava ficar na retaguarda, pronto para debelar qualquer crise. Mas, internamente, não deixava de expressar sua insatisfação com a decisão de Jango.
 
Brizola pela resistência
“Todo esse esforço para você virar rainha da Inglaterra?”, teria dito Brizola ao cunhado, numa séria discussão, conforme relata o Jornal do Brasil da época. Goulart justificava que era melhor assumir o governo fosse a circunstância que fosse. “ Depois é depois’. Para Brizola, não havia opção, era preciso resistir e não aceitar a diminuição de poderes que a emenda parlamentarista impunha. Ele defendia que Jango fosse tomar posse em Brasília pelas armas, se necessário. Subiriam por terra até a Capital Federal. “Nós tínhamos gasolina para 14 dias e armamento e munição suficiente para 110 voluntários, além do 3º Exército”, planejara Brizola, conforme conta o Jornal do Brasil.
 
Entretanto, o apoio do 3º Exército não era assim algo tão certo. O general Machado Lopes concordava com a solução parlamentarista negociada entre Tancredo Neves e Jango, em Montevidéu. O militar, em suas memórias publicadas em 1980, relata que deixou isso claro ao governador. “Se o senhor tentar criar qualquer dificuldade à solução pacífica da crise oriunda pela renúncia, ficará falando sozinho na estrada”. Quanto à João Goulart, Machado Lopes era enfático: “não era comunista. Era um homem simples e bom, que se deixava influenciar facilmente pelos que o cercavam, e sempre voltado para sua querência. Sua grande vocação era a estância e nada além do potreiro, de fato, o entusiasmava”, escreveu o militar em suas memórias.
 
 Jango conciliador
A explicação para sua postura, Jango imortalizou em seu discurso, ao prestar compromisso perante o Congresso Nacional naquele 7 de setembro, que era o 139ª dia da Independência do Brasil. “Tudo fiz para não marcar com sangue o meu caminho. Sabem todos que, inclusive por temperamento, inclino-me mais a unir do que a dividir, prefiro pacificar a acirrar ódios”. A sessão conjunta da Câmara e do Senado em que Jango expressou sua posição começara às 15h30 e era presidida pelo presidente do Senado, o paulista Auro de Moura Andrade (PSD).
 
 “A cerimônia foi muito bonita, uma invasão de gente no plenário. Representações do exterior tinham poucas, mas embaixadores estavam quase todos. Chefes de outros países não vieram, porque não deu tempo de convidar”, lembra o jornalista dos Diários Associados, Jayme Keunecke, o Jotaká, que havia ido a Brasília junto com Jango, no mesmo avião, dias antes. Jotaká conta que, à época, o que mais lhe chamou a atenção foi a humildade de João Goulart em suas palavras. “O discurso foi um chamamento do povo brasileiro para o trabalho, por ser do PTB. Um discurso também conciliador, pedindo a união de todos, dizendo que vinha em nome da unidade”, recorda.
 
Gaúchos fora do gabinete
No dia seguinte, em 8 de setembro de 1961, Jango tomou posse como presidente e indicou Tancredo Neves, do PSD de Minas Gerais, para o cargo de primeiro-ministro. Faziam parte do primeiro Conselho de Ministros do Brasil Walter Moreira Salles (PSD/SP), na Fazenda, o deputado federal Ulysses Guimarães (PSD/SP), como ministro de Indústria e Comércio, e o também deputado federal André Franco Montoro (PDC/SP), indicado para coordenar o ministério do Trabalho e Previdência Social. Partidos como o PSD, a UDN e o PSP do deputado Adhemar de Barros dominavam o restante do gabinete.
 
Deputados decepcionados
Nenhum gaúcho foi contemplado com uma pasta ministerial. O fato repercutiu negativamente no Rio Grande do Sul. “Gaúchos fora do Gabinete” e “Rio Grande ausente do Gabinete”, foram, respectivamente, as manchetes dos jornais A Hora e Folha da Tarde de 9 de setembro. A Última Hora, na mesma data, publicou matéria com a opinião dos deputados estaduais. Segundo o jornal, Ney Ortiz Borges, vice-líder do PTB, disse que não poderia ter sido maior a decepção. “Apenas vejo nomes comprometidos, que não merecem a consideração popular”. Onil Xavier (PRP) não quis fazer julgamentos. O líder pessedista Ariosto Jaeger também lamentou que nenhum gaúcho tivesse sido indicado para o Conselho de Ministros.
 
* Fontes consultadas
  • O III Exército na crise da renúncia de Jânio Quadros: um depoimento, por Marechal José Machado Lopes.
  • Brizola – da Legalidade ao Exílio, por Dione Kuhn.
  • Perfis Parlamentares: Leonel Brizola: perfil, discursos, depoimentos (1922/2004) – Projeto Memória do Parlamento.
  • El caudillo: Leonel Brizola, um perfil biográfico, por FC Leite Filho.
  • Jornais A Hora, Última Hora e Folha da Tarde.
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