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O PARLAMENTO GAÚCHO NO MOVIMENTO DA LIGALIDADE
A oposição enfim se manifesta contra, mas a Legalidade já era parte da história
André Pereira* - MTB 4704 - 08:20 - 08/09/2011
José Antonio Hadwig ficou muitos dias de prontidão
José Antonio Hadwig ficou muitos dias de prontidão

- Vai sair faisca !, cochichou o jornalista Carlos Bastos para os colegas Flávio Tavares e Carlos Felhberg - todos os três com 27 anos de idade e aboletados no balcão do café da Assembleia - quando viu o agitado deputado lacerdista Arthur Bacchini saltar do banco bruscamente e interromper, solerte, a passagem do adversário político, o deputado lider do governo brizolista, Sereno Chaise.

- Temos que resolver uma pendenga, deputado!, bradou o lépido Bacchini.
- O que que houve, deputado !?, retorquiu um surpreso e assustado Sereno.
- Pois muito que bem. Um dia o senhor cruza comigo e me cumprimenta; já no dia seguinte é como se eu fosse invisivel, espelho sem aço, nem sequer me olha. Agora o senhor vai ter que me dizer o que é que há,...tenho três jornalistas como testemunhas: ou o senhor me cumprimenta todo dia ou me esquece para sempre.

Aliviado, Sereno se desculpou, explicando que costumava se distrair quando estava com muito assunto abarrotando a cachola.
- O senhor me perdoe, não é nenhuma má intenção, nem desconsideração, e muito menos carência da educação, lhe juro, é pura distração.

Os sorrisos dos cinco personagens envolvidos nesta narrativa (todos vivinhos da silva no cinquentenário da Legalidade e podendo comprovar o ocorrido) exibe o clima em processo de descontração que começava a tomar conta do Casarão da Duque, nos dias que sucederam o movimento. A tensão mais forte já se esvaira e a Assembleia aparentemente voltava à normalidade. Aparentemente apenas. Quando a sessão iniciou às 14h05 do dia 11 de setembro de 1961, após 18 dias de funcionamento em caráter permanente, retomando a continuidade em sua 91ª constituição plenária, o deputado Luciano Machado, do PSD, subiu à tribuna para criticar o que chamou de exageros e clarinadas de Leonel Brizola e denunciar a própria Assembleia em meio ao vendaval em fúria que a tinha transformado em uma "Casa sem regimento".

A crise do telegrama

Bradando do púlpito parlamentar,o deputado Luciano Machado lembrou que com sua bancada - de Ariosto Jaeger, Hélvio Jobim, Lauro Leitão, Antonino Fornari, Euclydes Kliemann e Porcinio Pinto - tinha sido signatário de telegrama em que protestara veementemente contra correspondência da Assembleia, divulgada na Rádio Guaíba, publicizando uma posição unânime do Parlamento . A discórdia estava instalada por conta do telegrama, enviado por Carlomagno em um domingo, 27 de agosto, dois dias depois da renúncia de Jânio Quadros. ao Congresso Nacional, ao ministro da Guerra e aos presidentes de todas as Assembleias Legislativas dos estados.

A íntegra do telegrama também foi publicada no jornal Última Hora como ‘categórico pronunciamento em favor da Constituição e da legalidade:
A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, reunida em sessão permanente, exprime seus votos e sua confiança no sentido que a atual crise brasileira seja resolvida dentro da lei, da ordem e da democracia e que só ocorrerá com a posse do nôvo presidente da República, nos precisos termos da Constituição Federal.

Machado denunciava que o telegrama enviado por Carlomagno não havia sido aprovado naqueles termos. “Dito telegrama, dirigido a autoridades federais, não poderia de maneira alguma conter a assertiva de que representava o pronunciamento unânime do Legislativo Rio-Grandense, sendo que estranhamos profundamente a conduta de V. Exa., divorciada da realidade da decisão tomada na reunião de Líderes”, afirmou Machado, durante a sessão, referindo-se diretamente ao presidente da Assembleia.

Um novo texto
O grupo chegou a entregar a Carlomagno um outro texto para que uma nova correspondência fosse enviada aos mesmos locais, nos seguintes termos:
Ao tomar conhecimento do telegrama expedido pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, a Bancada do Partido Social Democrático resolve fixar sua posição, por maioria absoluta, no sentido de exprimir seus votos e sua confiança de que a atual crise política brasileira seja resolvida dentro da lei e da ordem, adotando-se soluções que visem a salvaguarda da democracia.

O ‘novo’ telegrama não citava João Goulart, tampouco defendia sua posse. Os pessedistas exigiam que fosse feito um desmentido, nas ondas da mesma emissora, com a ressalva de que eles não apoiavam o posicionamento da maioria, favoráveis às ações empreendidas em nome da Legalidade".

Ao contrário, eles apenas avançavam ao "reconhecer ao Congresso Nacional, que funcionava regularmente, o direito de adotar a solução legal que salvarguardasse a ordem e a democracia". Citando ainda os deputados Poty Medeiros e Gudbem Castanheira, que, como ele, arvoraram-se na defesa da Assembleia na Legalidade, Machado lembrava que manifestara-se energicamente para que forças militares estaduais, soldados armados de metralhadoras, não invadissem as dependências do Casarão, e assim não envolvê-lo em um espetáculo degradante de  falta de autoridade.

Sem muitas sutilezas
Na realidade, o telegrama era um bom pretexto para expressar a discordância entre parte do PSD e o presidente da Casa, que também era do PSD, mas sobretudo entre os trabalhistas que seguiam Brizola na defesa da Legalidade e a oposição que silenciara naquele período, levada de roldão pela defesa da Constituição. Sem muitas sutilezas, o líder do PTB, deputado Sereno Chaise, alfinetou a manifestação de Machado, definindo-a como extemporânea. "Poderia ter sido feita no momento da crise e não na sessão de hoje. Não desejo insinuar com isso que houvesse faltado coragem ao ilustre deputado palmeirense (Machado era de Palmeira das Missões) para abordar o problema, segundo o seu ponto de vista, naquele instante. Afirmo, apenas, que a sua intervenção nada trouxe de novo; não precisava, mesmo, ter sido feita, não serviu, nem mesmo, para situar a sua posição exata”.

Sem a pressão estridente da opinião pública e nem o clima bélico anterior, com a normalidade parlamentar retomada, a oposição, enfim, manifesta-se forte e claramente contra a ação de Brizola. Era tarde, porém, para tais contrariedades. Brizola,Jango, Machado Lopes, Carlomagno e todos os protagonistas do Movimento da Legalidade já tinham entrado definitivamente para a história do Brasil.

Hélio Carlomagno pagou caro pela pronta adesão ao Movimento da Legalidade. Arriscara tudo ao apoiar a Legalidade tão decididamente, conduzindo o Poder Legislativo para as fileiras do movimento legalista. Se o movimento fosse vitorioso, talvez fosse acusado, internamente, de ajudar a fortalecer Brizola e o PTB. Se se postasse entre os derrotados, em eventual fracasso da Legalidade, estaria condenado ao mesmo ostracismo brizolista e carregaria, ainda, a pecha de ter arrastado a sigla para o poço.

Considerada vencedora a Legalidade, com a posse de Jango, ainda que diminuida pelo arranjo do parlamentarismo, a adesão rendeu a Carlomagno um sério desgaste junto aos líderes pessedistas gaúchos como Tarso Dutra, Perachi Barcellos e Ildo Meneghetti. Depois de três mandatos como deputado estadual de 1951 a 1963, Carlomagno concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo PSD, mas sem apoio partidário pela adesão à causa de Brizola, não foi eleito. Desgostoso, mudou-se para o Rio de Janeiro, com a mulher Norma e os filhos pequenos Pedro Alberto e Ana Maria. Graças às relações partidárias no âmbito nacional, chegou a ser presidente do Cibrazem. Depois, com o golpe millitar de 1964, tudo deu uma"desgovernada" - como diria o genro José Antonio Carchedi, marido de Ana Maria, 50 anos mais tarde.

Corretores eleitorais
Cassado nos seus direitos políticos, aos 47 anos, Carlomagno curtiu o cruel ostracismo dos expurgados pelo regime do arbitrio. E sem candidatar-se mais a cargo eletivo, preferiu dedicar-se à advocacia e à paixão esportiva, o Internacional. Presidiu o conselho do clube e ficou conhecido também na imprensa esportiva pela talento na oratória com que abrilhantava as entrevistas no ambiente boleiro. Anos mais tarde, o vizinho de veraneio em Torres, e antigo colega de Parlamento, Cândido Norberto, confidenciou-lhe a ocorrência de um insólito telefone do presidente da República general João Batista Figueiredo, que procurava atrair ex-cassados para apoiar a realização de uma abertura lenta e gradual no país que permitiria o bi-partidarismo com a criação das agremiações partidárias Arena, governista, e MDB, de oposição.

Em dúvida, Carlomagno resolveu consultar Nestor Jost, amigo e correlegionário, que deu total apoio à ideia presidencial. Mas ele já estava desarraigado da política."Ao invés de cabos eleitorais, agora temos alguns corretores eleitorais", disse, certa vez, ao genro, desalentado com as mudanças que o tempo impunha. "A política não é mais para mim", despediu-se. Ao ser fulminado por um infarto do miocardio, em 25 de junho de 1992, aos 74 anos, a legalidade era lembrada emblematicamente através de presentes como uma caneta de ouro alusiva ao Movimento e um exemplar da Constituição que um desconhecido lhe entregara na Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, em setembro de 1961, como lembrança de sua defesa intrangimente da Carta Magna.

Medalha Cinquentenário da Legalidade
Em 31 de agosto de 2011, seu neto Maximiliano Carlomagno, filho do falecido Pedro Alberto, fotografado das galerias pelo primo José Eduardo Carlomagno Carchedi, recebeu a medalha especial da Assembleia Legislativa alusiva ao Cinquentenário da Legalidade que condecorou o avô e também outros ex-deputados daquela Legislatura. Dias antes, em 26 de agosto de 2011, por iniciativa do vereador da capital gaúcha, Elói Guimarães (PTB), Carlomagno foi, afinal, homenageado pela Câmara Municipal, que batizou um logradouro público na confluência das avenidas Ipiranga e Salvador França, no bairro Jardim Botânico, com seu nome. Na cerimônia, ao lado dos netos, do genro e da filha Ana Maria, a sua esposa, Norma, de 91 anos, emocionada, agradecia ter vivido para assistir a singela homenagem 50 anos depois dos acontecimentos.

...nem queremos saber de armas !
Uma comitiva do interior de gaúchos devidamente pilchados chegou à Praça da Matriz movimentando-se em uma formação que lembrava uma coluna militar. Solícito, um soldado da Brigada Militar que guardava uma barricada armada com sacos de areia, diante do Palácio Piratini, indicou-lhes um sargento com uma prancheta e uma caneta.

- Aquele sargento é o que distribui as armas...- informou para a gauchada que não escondeu a surpresa.
- Tchê, somos de uma invernada artística, nem queremos saber de arma !

O episódio narrado pelo jornalista e escritor paulista Paulo Markum, no final de uma manhã de um domingo nestes dias evocativos aos 50 anos da Legalidade, diante de mais de 100 pessoas que reuniram-se para conversar sobre o Movimento, em plena Praça da Matriz, foi recebido com sorrisos. O autor do livro "Que as armas não falem", relançado agora durante as comemorações do cinquentenário da Legalidade, alerta que era bem diferenciado o ambiente vivido naquele local há exatos 50 anos, em 1961, quando a Praça virou um enorme acampamento de apoio ao governador Leonel Brizola e de repúdio à tentativa de golpe militar contra a posse do vice- presidente João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto.

O sopro épico e o jacaré empalhado
Com um megafone, agora, meio século depois, no mesmo cenário da praça, Markum respondeu à curiosidade pública durante quase uma hora sobre o que o secretário de Cultura de Porto Alegre, Sergius Gonzaga, chamou de "sopro épico gaúcho". Entre os presentes, o filho do jornalista Hamilton Chaves, que coordenou a Rede da Legalidade, o fotógrafo Ricardo Chaves tirou fotos com uma câmera digital impensável na época (quando também não se imaginava ainda avanços como a internet, o celular e a TV) e contou sobre um jacaré empalhado com o nome do ministro do Exército Odilio Denys às costas que não lhe saia da memória. "Vi aquele jacaré pendurado em uma árvore nos meus pesadelos de menino e muitas anos depois reencontrei-o em uma fotografia no arquivo do jornal onde trabalho.E vi que ele existira mesmo, não era sonho de guri".

Um aeroviário aposentado chamado Egon Volker narrou que veio à praça em agosto de 1961 para tentar se alistar na força de resistência de Brizola, mas foi rejeitado porque ainda não tinha 21 anos. "Me restou acompanhar tudo lá na Varig, perto do Aeroporto Salgado Filho", recordou ele, lembrando que viu Goulart chegando do Uruguai em uma aeronave modelo Douglas e rumar mais tarde para Brasilia num avião Caravelle, da Varig.

Depois, todos olharam para o cenário da praça, circularam o olhar pelos prédios vizinhos, pelo Casarão da Duque, onde funcionava a Assembleia Legislativa e o Palácio Piratini dos porões históricos da Rede da Legalidade. Mas era domingo e tudo estava fechado. Só a capacidade particular da imaginação de cada um poderia recuar meio século no tempo e simular um reencontro com a história reverenciada nestes dias.

Uma rica experiência
Durante a Legalidade, em São Paulo das Missões, um filho de colonos de 19 anos, chamado José Antonio Hadwig, ficara muitos dias de prontidão, embarcado em um vagão de trem que não saiu do lugar na estação ferroviária de São Luiz Gonzaga, à espera da guerra da Legalidade. Sem comunicação alguma com o mundo externo, dedicados aos exercícios militares, passando frio, sede e fome, os soldados rasos do 3º RC - Regimento de Cavalaria Dragões do Rio Grande de São Luis Gonzaga, só foram liberados do alerta militar no dia 13 de setembro de 1961.

O incrivel relato do jovem recruta incorporado ao Pelotão de Morteiro Esquadrão de Apetrecho com o número 486, sob a função de soldado de fileira, remuniciador e atirador do morteiro, que será publicada no ano que vem, em um livro sobre o município organizado por Mirna Köhler, revela que José apoiava as ideias defendidas por Brizola - ao contrário do seu comandante, o coronel Moacir Ribeiro Coelho, que seguia a cartilha do Ministério da Guerra, que não queria a posse de Jango.

Assim, no dia 7 de setembro de 1961, o soldado teve que esconder uma imensa tristeza ao ver que o comandante ordenara que não se cantasse o Hino Nacional. E que se hasteasse, em lugar do pavilhão nacional, "uma bandeira preta, em sinal de luto". Aos 69 anos, no ano do cinquentenário, morando ainda em São Paulo das Missões, com seis flhos e sete netos, José rememora com grande emoção aqueles dias do turbilhão que passou pela sua vida. E finaliza a narrativa que será eternizada no livro, deste modo: "Posso garantir que, sem dúvida, isto foi um movimento extraordinário! Começou aqui no Rio Grande do Sul e estendeu-se por todo o Brasil. Aos meus descendentes, de herança deixo esta rica experiência!"

Orgulho do tamanho do mundo
Neste cinquentenário da Legalidade, o filho da deputada Juliana Brizola, de um ano e sete meses, impacienta-se e perambula pelo salão lotado nesta noite de debates sobre democracia e imprensa, cujo pano de fundo é justamente o movimento de 1961, em que brilharam seus antepassados. O nome do filho da Juliana Brizola é João Inácio. Bisneto de Leonel, vem a ser sobrinho bisneto de Jango que, como se sabe, era cunhado de Brizola.

O pequeno João Inácio certamente não entende as alusões frequentes e repetidas aos bisavós que os homens de terno e entonação grave fazem neste prédio vetusto chamado de Casarão da Duque, já foi sede do Parlamento gaúcho e que hoje abriga o Memorial do Legislativo. Agora, importa ao menininho resistir ao sono que já incomoda, fugir da monotonia desta falação interminável, cansativa e incompreensível dos adultos. Mas um dia, com toda a certeza, João Inácio vai sentir um orgulho do tamanho do mundo, da herança desses seus antepassados que todos reverenciam nesta noite e nestes dias em que se revive a Legalidade.

* Com Vanessa Canciam

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