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A greve histórica do Brasil legítimo
Adão Villaverde* | PT - 14:46-02/05/2017

Mais uma vez, a reconhecida capacidade política de Lula produziu uma notável peça de análise da realidade histórica do nosso país. E, de quebra, ainda afagou a auto estima dos gaúchos, na tarde de sábado (29), em Rio Grande, onde recentemente haviam 25 mil trabalhadores navais e que hoje, vítimas do desmonte neoliberal, mal passam de três mil.

Lula lembrou às 12 mil pessoas que lotaram o largo central da cidade portuária, no ato em defesa do polo naval que, nos primórdios do PT, quando veio pela primeira vez ao estado, a convite do sindicalista Olívio Dutra e do advogado do Sindicato dos Bancários, Tarso Genro, confessou-lhes a imensa inveja de paulista adotivo. “Vocês tiveram Getúlio, Jango e tem Brizola. Em São Paulo, tivemos Jânio, Ademar e temos Maluf”, disse ele.

A diferença dos trios de governantes citados por Lula é como das águas claras da transposição do rio São Francisco para o vinho importado que se bebe, sorrateiramente, no Palácio do Jaburu, onde se entrincheira o interino ilegítimo.

É uma diferença abissal, como Lula disse.

É brutal, digo eu, sobretudo porque é a mesma diferença de patrimônio moral e de legado público daqueles inesquecíveis lutadores rio-grandenses para a turma toda que usurpa o poder no dias atuais.

Em que fotografia se alinham Temer e seus aliados no Parlamento, no Judiciário, na mídia e nos empresários que seguem o pato amarelo?

Certamente não é na mesma moldura de Vargas, Goulart e Brizola, onde podemos nos enquadrar com Lula, Dilma, Olívio, Tarso e os 40 milhões registrados pela imprensa estrangeira como protagonistas da maior greve geral já ocorrida no Brasil, em 28 de abril último.

O ilegítimo que traiu Dilma, sustentado pelo presidiário Cunha, desfruta o falso poder, desautorizado pelas urnas, porque posa ao lado de quem representa os interesses do mercado e do estrangeiro, contra o povo e a soberania brasileira.

Os retratos opostos com que Lula sintetiza os dois extremos ideológicos e éticos da nossa história estão fixadas no exercício que fiz, recentemente, em um Grande Expediente na tribuna da Assembleia Legislativa do RS, imaginando, para facilitar certo entendimento ainda que reducionista, que vivemos em dois Brasil.

Há o país das elites intolerantes que, cotidianamente, nos canais da mídia privada, transbordam o ódio visceral contra os mais pobres que ameaçam os privilégios seculares dos poderosos e, por decorrência lógica, contra os que, como nós, defendem a igualdade e a justiça social para todos. E que, portanto, constituímos esta outra nação, o Brasil legítimo.

Com parâmetros simbólicos que remetem à primeira grande paralisação de 1917, a greve avassaladora de sexta-feira mostra a resistência de um povo em busca da sua dignidade interrompida, mais uma vez, quando seus direitos e conquistas incomodam e ameaçam os ocupantes da casa grande.

Em nossas ‘redes de indignação’ (como cunhou o espanhol Manuel Castel, estudioso dos processos de massa) os injustiçados, vitimados pelos efeitos nefastos da deturpação capitalista, acabam tomando as ruas para pressionar o governo sem credibilidade.

Somos milhões, ainda que a chamada grande mídia comercial manipule e sonegue informações para forjar um imaginário coletivo alienado sobre os riscos ao futuro da população trabalhadora.

E assim, mais uma vez, somos obrigados a nos unir para evitar os piores danos do golpe de abril de 2016 (sem uniformes verde-oliva, quarteladas e coturnos, como aconteceu em abril de 1964), mas continuado com o entreguismo e o ataque devastador das antirreformas que vilipendiam os direitos sociais, trabalhistas e previdenciários e a própria vida da maioria dos brasileiros de hoje e das gerações que nos seguirão.

De novo, outra vez, como em 1954, 1961, 1964, 2016 teremos que enfrentar os golpistas de sempre.

Nesta trajetória imprescindível, nos animam as companhias de Lula que enfrenta a mesma jornada de adversidades desde a fome no inóspito sertão pernambucano à perseguição coercitiva que humilhou Marisa Letícia; de Dilma que padeceu nos calabouços da tortura e que foi golpeada do ano passado sem cometer crime de responsabilidade; de Olívio, Tarso, dos trabalhadores das cidades, dos campos, dos portos; de todos nós, que somos forçados a resistir e lutar permanentemente para merecer o Brasil melhor com que sonhamos por teimosia, idealismo e solidariedade com todos os democratas.

*Deputado estadual (PT)

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